quinta-feira, outubro 29, 2009

Hans Küng ataca assimilação de anglicanos pelo Vaticano

O teólogo dissidente Hans Küng criticou duramente seu antigo amigo Bento XVI, por haver aberto as portas aos anglicanos, afirmando que se trata de "uma tragédia", provocando uma resposta do Vaticano que disse que as acusações estão "muito longe da realidade". Küng, de 81, em artigo publicado nos diários The Guardian (Reino Unido) e La Repubblica (Itália), intitulado Esse papa que pesca nas águas da direita, afirmou que a decisão de Joseph Ratzinger de acolher na Igreja Católica a todos os anglicanos que o desejem é uma "tragédia".

Segundo o teólogo suíço, se trata de uma "tragédia" que se une "às já ocasionadas (por Bento XVI) aos judeus, aos muçulmanos, aos protestantes, aos católicos reformistas e agora à Comunhão Anglicana, que fica debilitada perante a astúcia vaticana".

"Tradicionalistas de todas as igrejas, uni-vos sob a cúpula de São Pedro. O Pescador de homens pesca, sobretudo na margem direita do lago, embora ali as águas sejam turvas", escreveu Küng que acusa o papa de querer restaurar "o império romano, em vez de uma comunidade de católicos".

Segundo Küng, "a fome de poder de Roma divide o cristianismo e danifica sua Igreja" e o atual arcebispo de Canterbury, o chefe da Igreja Anglicana, Rowan Williams, "não esteve à altura da astúcia vaticana".

Para o teólogo dissidente, as consequências da "estratégia" de Roma são três: "o enfraquecimento da Igreja Anglicana, a desorientação dos fiéis dessa confissão e a indignação do clero e o povo católico", que veem - diz - como se aceitam sacerdotes casados enquanto se insiste, de maneira "teimosa", no celibato dos padres católicos.

O diretor do jornal vespertino vaticano L'Osservatore Romano, Giovanni María Vian, respondeu que "mais uma vez, uma decisão de Bento XVI volta a ser pintada com rasgos fortes, preconceituosos e, sobretudo, muito afastados da realidade".

"Infelizmente Küng faz outra das dele, antigo colega e amigo com quem o papa em 2005, só cinco meses após sua escolha, se reuniu, com amizade, para discutir as bases comuns éticas das religiões e a relação entre razão e fé", escreveu Vian.

O diretor do jornal assegurou que Küng voltou a criticar seu antigo companheiro na Universidade de Tübingen (Alemanha) "com aspereza e sem fundamento".

O gesto do papa, segundo Vian, tem como objetivo "reconstituir a unidade querida por Cristo e reconhece o longo e fatigante caminho ecumênico realizado neste sentido".

"Um caminho que vem distorcido e representado enfaticamente como se tratasse de uma astuta operação de poder político, naturalmente de extrema direita", acrescentou Vian, que ressaltou que "não vale a pena ressaltar as falsidades e as inexatidões" de Küng.

O representante do Vaticano criticou as acusações vertidas contra o líder da Igreja Anglicana e expressou sua "amargura" perante este "enésimo ataque à Igreja Católica Apostólica Romana e a seu indiscutível compromisso ecumênico".

No último dia 20, o Vaticano anunciou a disposição do papa a acolher na Igreja Católica todos os anglicanos que o desejem e a aprovação, com esse objetivo, de uma Constituição Apostólica (norma de máxima categoria) que prevê, entre outras, a ordenação de clérigos anglicanos já casados como sacerdotes católicos.

No mundo são cerca de 77 milhões fiéis anglicanos e nos últimos anos sua igreja viveu momentos de crise e de forte divisão interna, devido à ordenação de mulheres e homossexuais declarados como bispos e a bênção de casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Por enquanto se desconhece o número exato de anglicanos que desejam rumar a Roma, embora segundo fontes do Vaticano esse número pode estar na casa de meio milhão, entre eles meia centena de bispos.

Fonte: Estadão

3 comentários:

Elyson Scafati disse...

Sérgio, Uma coisa que não entendo é a seguinte:

Se todos vocês são cristãos, que mal há em resolverem suas diferenças e se unificarem sob um só credo?

Judeus tiveram lá suas diferenças mas isso nunca foi motivo de grandes discórdias como ocorreu com o cristianismo e como ocorre com o islã.

Se é um problema de quem segue o verdadeiro cristianismo, como saber dentre católicos, anglicanos, todas as marcas de evangélicos (batistas, pentecostais, calvinistas & cia) e para-evangélicos (mórmons adventistas &cia)está com a razão?

Voc~es vivem uma questão mais amena porém semelhante àquela que existe entre xiitas e sunitas; saber quem tem razão.

Isso não importa, o que importa é serem capazes de se tornarem pessoas melhores a cada dia. No mais, deus está se lixando para picuinhas humanas.

Janaina Luc disse...

Interessante a postagem. Não sei se entendi direito as razões do Papa abrindo a Igreja para os Anglicanos; penso que a intençao dele, pelo menos aparentemente, seja dar um passo no sentido do ecumenismo (seria isso?), mas concordo com Kung, no sentido de que foi um tiro no pé, pois parece que esta decisão tras no fundo algum interesse "político-religioso" , pois se ele abre a Igreja para os anglicanos casados se ordenarem e não permite aos próprios sacerdotes originarios da Igreja Católica a quebra do Celibato, fica parecendo uma decisão baseada em interesses que vão além da fé e da proposta ecumênica. Ou será que nao entendi direito?

Chico disse...

Os motivos estão claros: a admissão de mulheres e de homossexuais no clero anglicano causou descontentamento entre anglicanos conservadores; a possibilidade aberta por Bento XVI de transferência direta de clérigos anglicanos para a Igreja Romana sem que estes sejam obrigados a observar votos de celibato é uma porta aberta para os clérigos anglicanos descontentes migrarem para a Igreja Romana mantendo o status pastoral.

As implicações são óbvias: com essa iniciativa, a Igreja Romana busca penetrar em países onde sempre sofreu muita resistência (exemplo maior é a Inglaterra); por outro lado, cria-se uma divisão no clero católico entre os que sempre estiveram sob exigência de celibato e os que, por virem da Igreja Anglicana, não estão sob voto de celibato.

Essa distinção não tem fundamento bíblico e contradiz toda a doutrina católica estabelecida desde os concílios de Elvira (306) e Nicéa (325). Por essa inconsistência doutrinária, os teólogos católicos mais progressistas (dentre eles Hans Küng) vêem nessa iniciativa um movimento mais político, ou proselitista, e menos um movimento reconciliatório.